06 setembro 2005

A fé religiosa. Condição da fé inabalável

Do ponto de vista religioso, a fé é a crença nos dogmas particulares que constituem as diferentes religiões; todas as religiões têm os seus artigos de fé. Sob este aspecto, a fé pode ser racionada ou cega. A fé cega, não examinando nada, aceita sem controle o falso como o verdadeiro, e se choca, a cada passo, contra a evidência e a razão; levada ao excesso, produz o fanatismo. Quando a fé repousa sobre o erro, ela se destrói, cedo ou tarde; a que tem por base a verdade é a única segura do futuro, porque não tem nada a temer do progresso das luzes, já que, o que é verdadeiro na obscuridade, o é igualmente em plena luz. Cada religião pretende estar na posse exclusiva da verdade; preconizar a fé cega sobre um ponto de crença, é confessar sua impotência em demonstrar que se tem razão. Diz-se vulgarmente que a fé não se prescreve; daí muitas pessoas dizerem que não é por sua culpa, se não têm fé. Sem dúvida, a fé não se recomenda, mas se adquire, e não há ninguém que esteja privado de a possuir, mesmo entre os mais refratários. Falamos das verdades espirituais fundamentais, e não de tal ou tal crença particular. Não cabe à fé ir à eles, mas a eles irem ao encontro da fé, e se a procuram com sinceridade, a encontrarão. Em certas pessoas, a fé aparece de alguma sorte inata; uma centelha basta para a desenvolver. Essa facilidade em assimilar as verdades espirituais é um sinal evidente de progresso anterior; em outros, ao contrário, elas não penetram senão com dificuldade, sinal não menos evidente de uma natureza atrasada. Os primeiros já creram e compreenderam; trazem ao renascer. a intuição do que sabiam: sua educação está feita; os segundos têm tudo a aprender; sua educação está por fazer; ela se fará, e se não ficar concluída nesta experiência, o estará em uma outra. À fé é preciso uma base, e essa base é a inteligência perfeita daquilo em que se deve crer; para crer, não basta ver, é preciso, sobretudo, compreender. A fé raciocianada, a que se apóia sobre os fatos e a lógica, não deixa atrás de si nenhuma obscuridade; crê-se, porque se está certo, e não se está certo senão quando se compreendeu; eis porque ela não se dobra; porque, não há fé inabalável senão aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade. (O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec)

A Virtude

A virtude, em seu mais alto grau, comporta o conjunto de todas as qualidades essenciais que constituem o homem de bem. Ser bom, caridoso, laborioso, moderado, modesto, essas qualidades são do homem virtuoso. Infelizmente, elas são com freqüência acompanhadas de pequenas enfermidades morais que as desornam e as atenuam. Aquele que exibe a sua virtude não é virtuoso, uma vez que lhe falta a qualidade principal: a modestia, e que tem o vício mais contrário: o orgulho. A virtude em verdade digna desse nome não gosta de se exibir; é adivinhada, mas se oculta na obscuridade e foge da admiração das multidões. Todos os homens de bem ignoram, eles mesmos, que são virtuosos; se deixam ir na corrente de suas santas inspirações, e praticam o bem com um desinteresse completo e um inteiro esquecimento de si mesmos. Afastai dos vossos corações o pensamento do orgulho, da vaidade, do amor-próprio que desornam sempre as mais belas qualidades. Não imiteis esse homem que se coloca como um modelo e glorifica, ele mesmo, as próprias qualidades a todos os ouvidos complacentes. Essa virtude de ostentação oculta, freqüêntemente, uma multidão de pequenas torpezas e odiosas vilezas. Em princípio, o homem que exalta a si mesmo, que eleva uma estátua à sua própria virtude, aniquila, só por esse fato, todo mérito efetivo que possa ter. O homem que faz o bem, sente, no fundo do coração, uma satisfação íntima, mas desde que essa satisfação se exteriorize para recolher elogios, ela degenera em amor-próprio. Mais vale menos virtudes com a modestia do que muitas com o orgulho. Foi pelo orgulho que as humanidades sucessivas se perderam, e é pela humildade que elas, um dia, deverão se redimir.