10 janeiro 2006

Bondade Fundamental

A despeito de todos os nossos problemas e confusões, a despeito de todos os nossos altos e baixos emocionais e psicológicos, existe algo fundamentalmente bom em nossa existência como seres humanos. A menos que sejamos capazes de descobrir esse fundamento de bondade em nossa própria vida, não poderemos alimentar a esperança de melhorar vidas alheias. Se não passamos de seres miseráveis e infelizes, como conceber e, mais ainda, como tornar concreta uma sociedade iluminada? A descoberta da bondade fundamental tem início com a valorização de experiências muito simples. Não estamos falando de como seria bom ganhar rios de dinheiro, concluir o curso universitário depois de anos de estudo ou comprar uma casa nova; referimo-nos, aqui, ao que há de intrinsecamente bom em estarmos vivos - o que independe das nossas realizações ou da satisfação dos nossos desejos. Continuamente experimentamos vislumbres de bondade, mas com frequência não chegamos a reconhecê-los. Quando vemos uma cor brilhante, estamos testemunhando nossa própria bondade inerente. Quando ouvimos um som melodioso, estamos escutando nossa própria bondade fundamental. Quando saímos do chuveiro, sentimo-nos frescos e limpos, e ao deixarmos um quarto abafado, apreciamos a repentina corrente de ar. esses acontecimentos podem durar uma fração de segundos, mas são experiências reais de bondade. Eles não acontecem a todo momento, mas nós em geral os ignoramos como coisa corriqueira ou mera coincidência. contudo, vale a pena reconhecê-los e aproveitá-los, porque nesses momentos estão se revelando a não-agressividade e o frescor - a bondade fundamental - que constituem a base de nossas vidas. Todo ser humano possui uma natureza básica de bondade que não é nem diluída nem confusa. Essa bondade apresenta um imenso conteúdo de amabilidade e estima. Como seres humanos, podemos faer amor. Podemos acariciar alguém com um gesto de ternura; podemos beijar uma pessoa com carinho e compreensão. Podemos reconhecer a beleza; podemos reconhecer o que há de melhor no mundo. Podemos valorizar o que ele tem de vívido: a qualidade amarela do amarelo, a qualidade vermelha do vermelho. Nossa experiência é real. E ao valorizarmos a realidade, ela pode efetivamente atuar sobre nós. Podemos ser obrigados a levantar da cama de manhã, depois de poucas horas de sono, mas, se olharmos através da janela e virmos o sol brilhando, esse fato pode nos animar. Podemos realmente nos curar da depressão, se reconhecermos que o mundo que possuímos é bom. (Shambhala - A Trilha Sagrada do Guerreiro).

Coragem

A condição de guerreiro não significa entrar em guerra com os outros. A agressividade é a origem de nossos problemas, não a solução. No tibetano, a palavra "guerreiro" traduz o pawo, que significa literalmente "aquele que é corajoso". Nesse contexto, o espírito guerreiro é a tradição da coragem humana, ou tradição do destemor. A chave do espírito guerreiro é não termos medo de ser quem somos. Em última instância, essa é a definição de coragem: não ter medo de si mesmo. Diante dos grandes problemas do mundo, podemos ser simultaneamente heróicos e amáveis, o oposto do egoísmo. Quando temos medo de nós mesmos e da aparente ameaça que o mundo representa, tornamo-nos extremamente egoístas. Temos vontade de construir nosso próprio nicho, nosso próprio casulo, para podermos viver isolados e em segurança. Mas a nossa coragem pode ir mais longe. Devemos tentar fazer com que o nosso pensamento transcenda o lar, o fogo ardendo na lareira, o ato de levar os filhos para a escola ou de ir para o trabalho. Devemos tentar descobrir de que maneira podemos ajudar o mundo. Se não o ajudarmos, ninguém o fará. Compete a nós ajudar o mundo. Ao mesmo tempo, ajudar os outros não significa abandonar nossa vida individual. Ninguém precisa sair correndo para se candidatar ao cargo de prefeito da cidade ou presidente dos EUA pra ajudar as pessoas. podemos começar pelos parentes, pelos amigos e pelas pessoas que estão à nossa volta. Na verdade, podemos começar por nós mesmos. o importante é perceber que não há dia de folga. Não podemos simplesmente parar e descansar, pois o mundo inteiro precisa de ajuda. Embora todos nós sejamos responsáveis por ajudar o mundo, corremos o risco de criar um caos adicional, se tentarmos impor nossas idéias ou nossa ajuda. (Shambhala - A Trilha Sagrada do Guerreiro).