02 fevereiro 2006

Carta escrita no ano de 2070

Ano 2070. Acabo de completar 50 anos, mas a minha aparência é de alguém de 85. Tenho sérios problemas renais porque bebo pouca água, creio que me resta pouco tempo, hoje sou uma das pessoas mais idosas nesta sociedade. Recordo quando tinha 5 anos, tudo era muito diferente, havia muitas árvores nos parques, as casas tinham bonitos jardins e eu podia desfrutar de um banho de chuveiro com cerca de uma hora, agora usamos toalhas em azeite mineral para limpar a pele. Antes todas as mulheres mostravam as suas formosas cabeleiras, agora devemos raspar a cabeça para a manter limpa sem água. Antes o meu pai lavava o carro com a água que saía de uma mangueira, hoje os meninos não acreditam que a água era utilizava dessa forma. Recordo que havia muitos anúncios que diziam "CUIDEM DA ÁGUA", só que ninguém ligava, pensávamos que a água jamais poderia terminar. Agora, todos os rios, barragens, lagoas e mantos aquíferos estãoirreversivelmente contaminados ou esgotados. Antes a quantidade de água indicada como ideal para beber era oito copos por dia por pessoa adulta, hoje só posso beber meio copo. A roupa é descartável, o que aumenta grandemente a quantidade de lixo, tivemos que voltar a usar os poços sépticos (fossas) como no século passado porque as redes de esgotos não funcionam por falta de água. A aparência da população é horrorosa, corpos desfalecidos, enrugados pela desidratação, cheios de chagas na pele pelos raios ultravioletas que já não tem a capa de ozônio que os filtrava na atmosfera, imensos desertos constituem a paisagem que nos rodeia por todos os lados. As infecções gastrointestinais, enfermidades da pele e das viasurinárias são as principais causas de morte. A indústria está paralisada e o desemprego é dramático, as fábricas dessalinizadoras são a principal fonte de emprego e pagam os funcionários com água potável em vez de salário. Os assaltos por um bujão de água são comuns nas ruas desertas, a comida é 80% sintética.Pela ressequidade da pele uma jovem de 20 anos está com a aparencia de 40. Os cientístas investigam, mas não há solução possível, não se pode fabricar água, o oxigênio também está degradado por falta de árvores o que diminuiu o coeficiente intelectual das novas gerações. Alterou-se a morfologia dos espermatozóides de muitos indivíduos, como consequência há muitas crianças com insuficiências, mutações e deformações. O governo até nos cobra pelo ar que respiramos, são 137 m3 por dia por habitante adulto, e aqueles que não pode pagar são retirados das "zonas ventiladas", que estão dotadas de gigantescos pulmões mecânicos que funcionam com energia solar, não são de boa qualidade mas pode-se respirar, a idade média é de 35 anos. Em alguns países restam manchas de vegetação com o seu respectivo rio que é fortemente vigiado pelo exército, a água voltou a ser um tesouro muito cobiçado, mais do que o ouro ou diamante. Aqui, não há arvores porque quase nunca chove, e quando chega a registrar-se uma precipitação, é de chuva ácida, as estações do ano têm sido severamente transformadas pelas provas atômicas e pela poluição da indústria do século XX. Advertiam que era preciso cuidar do meio ambiente e ninguém fez caso. Quando a minha filha me pede que lhe fale de quando era jovem, descrevo o quão bonito que eram os bosques, lhe falo da chuva, das flores, do agradável que era tomar banho e poder pescar nos rios e barragens, beber toda a água que quisesse, o quanto nós éramos saudáveis!!!Ela pergunta-me:" - Papai! Porque a água acabou?" Então, sinto um nó na garganta, não posso deixar de sentir-me culpado, porque pertenço à geração que acabou destruindo o meio ambiente sem ao menos prestar atenção a tantos avisos. Agora os nossos filhos pagam um preço alto e sinceramente creio que a vida na terra já não será possível dentro de pouco tempo, porque a destruição do meio ambiente chegou a um ponto irreversível. Como gostaria de voltar atrás e fazer com que toda a humanidade compreendesse isso enquanto ainda podíamos fazer algo para salvar o nosso planeta terra! (Fonte: Crônica de los Tiempos, por Ria Elwanger)

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